Filme da Netflix sobre criança congelada mexe com crenças sobre o pós-morte

Um casal da Tailândia decidiu, em 2015, preservar o cérebro da filha Matheryn, de dois anos. Assim que confirmaram a sua morte, após um curto e traumático tratamento de um câncer raro, ela se tornou a pessoa mais jovem a ser congelada por criogenia, método que mantém o corpo ou o cérebro em um tanque de nitrogênio a quase -200ºC. A história é contada no documentário "Contornando a morte", que entrou recentemente na Netflix. Mas será possível, um dia, contornar a morte?

O filme coloca no centro das discussões não só a técnica para manter cadáveres congelados, mas a própria crença na ciência como o último estágio para a superação da pergunta do título. Como Matheryn, mais de 130 pacientes em tanques são mantidos por uma ONG dos EUA, a Alcor, às custas dos familiares à espera de um possível retorno à vida da pessoa amada.

O médico pediatra Carlos Alexandre Ayoub, presidente do Centro de Criogenia do Brasil, explica que é preciso distinguir a técnica de congelamentos de corpos com a de congelamento de células, tecidos e órgãos. "Você congela óvulos, esperma, osso, pele, células-tronco. Existe um método de criogenia. Isso é normal, e é feito no Brasil desde 1982 por várias empresas".

No caso de congelamento de pessoas, no entanto, trazer alguém de volta à vida tem uma barreira fundamental, segundo o especialista.

"Para congelar cérebros e pessoas, tem o problema da memória. Você não vai saber quem você foi. É o tipo da coisa que pode até confortar a pessoa com dinheiro para isso, mas se parar para pensar, vai ver que não funciona. Tanto que todas as empresas quebraram; só ficou uma, sem fins lucrativos nos EUA, em que você paga um seguro para o corpo. Preservar alguém em tanques de nitrogênio pode custar de US$ 200 mil a US$ 80 mil (caso de quem, como a família tailandesa, preferiu guardar apenas o cérebro).

Ayoub compara o procedimento à memória de um computador. "Quando você salva alguma coisa na memória, você salva no disco rígido. O nosso cérebro não tem disco rígido, só ondas elétricas. Se elas param de funcionar, não tenho essa gravação. Quando ligar de novo aquele cérebro, ele perdeu tudo o que tinha", explica.

 

Uma técnica que não deu certo

No filme, essa impossibilidade é percebida pelo filho mais velho do casal, espécie de herdeiro da obsessão dos pais. Em um dos diálogos mais chocantes do documentário, ele conta ter ficado impressionado ao ver o rosto e os olhos da irmã sendo "sugados para dentro" no processo de desidratação. Neste processo, a água do cérebro é substituída por um crioprotetor para prevenir a formação de cristais líquidos.

O jovem pergunta a um especialista, que conseguiu descongelar sem danos o cérebro de um coelho, se o sistema nervoso central da irmã havia sido encolhido e perdido as estruturas dos neurônios. Descobre, então, que ainda não há respostas para isso.

O professor de ciências médicas da Unicamp Flávio César de Sá afirma que a criogenia de corpos humanos é uma técnica que não deu certo. Há relatos, segundo ele, de casos em que corpos congelados foram quebrados quando foram manipulados.

Para o médico, não seria exagero dizer que o pai da criança, que é cientista, é vítima de um "engodo". "O pai mostra uma fé na ciência que se equipara com a fé religiosa. Mas religião tem sua fundamentação, seus dogmas, uma crença imutável. Na ciência, tudo é impermanente. O que se sabe hoje, amanhã não vale mais. Mas o pai acredita que vai ser possível viajar no tempo, algo totalmente fora da realidade. A impossibilidade de lidar com perda rouba a sua objetividade científica."

Flávio César de Sá lembra que a obsessão humana em superar a morte não é de hoje; vem desde as crenças dos egípcios e gregos antigos. "Quando saiu o filme 'Avatar', foram publicadas muitas reportagens falando em transumanidade, uma forma de superar o corpo humano como é hoje para um corpo permanente. Seria uma tentativa de adiar a morte por um tempo, quem sabe, indeterminado".

O professor lembra que, nos seis anos de formação em medicina, o tema da morte é recorrentemente tratado como tabu mesmo entre os alunos. "O que eu tento explicar aos estudantes é que a morte não é uma derrota. Nossa luta não é contra ela, mas contra o sofrimento. Precisamos cuidar do paciente para que ele tenha uma vida boa. Inclusive na hora da morte."

 

Aspectos religiosos

Professora responsável pelo Curso de Introdução ao Zen-Budismo da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil, Monja Heishin Gandra, discípula de Monja Coen Roshi, assistiu ao filme a pedido da reportagem e destacou a maneira como o pai vivencia a perda "triste e brutal" sob o ponto de vista do cientista.

"Cada um enfrenta a perda a partir de sua compreensão de mundo, de sua vivência, sua cultura. Ele sublimou. Não passou a perda emocionalmente, mas jogou na ciência uma tentativa de superar a morte.

Ela lembra que, segundo os ensinamentos de Buda, não devemos ter apego na vida, já que tudo nela é transitório. "Não existe o eu fixo. Somos um acúmulo de experiências de pessoas em nós. Somos nossos ancestrais.".

Mas, segundo ela, o budismo adquiriu uma leitura cultural própria por onde passou, inclusive na Tailândia, onde aquela família fez uma interpretação particular da ideia de reencarnação.

Além disso, pontua que não estamos sabendo lidar com a tecnologia, "uma ferramenta incrível que dá a sensação de poder". "O que o filme mais fala é sobre como encaramos a perda. Como lidamos com isso? E como a gente lida para não sofrer? Como é possível se apegar a uma vida que se quer ter controle quando ela deixa de existir? É um problema grave de apego. Essa família vai sofrer sempre porque não se libertou."

Formado em filosofia, o padre João Batista Gomes de Lima, atual reitor do Centro Universitário São Camilo, afirma que a criogenia suscita o desejo de viver eternamente com perfeita saúde física e mental, além da eterna juventude. Mas é um projeto totalmente inviável sob a ótica católica.

"Não deve ser alimentada a esperança de que as pessoas que foram congeladas voltem a uma vida normal. Mesmo que isto seja uma possibilidade científica futura, a doutrina da Igreja Católica não trabalha com esta perspectiva", explica.

"Não podemos jamais negar a nossa condição de finitude porque ela é própria da natureza do ser humano. A imagem é sempre uma ideia falsa do real. E, neste sentido, os recursos tecnológicos têm contribuído muito para que a imagem cada vez mais assuma um papel de espetacularização e de distanciamento do real. Não é por acaso que nas nossas imagens, nossas fotos ou vídeos têm sempre uma carga muito grande daquilo que nós gostaríamos que fosse e não, de fato, aquilo que somos."

 

Fonte: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/09/23/filme-da-netflix-narra-historia-de-crianca-congelada-apos-morte-entenda.html

Matheus Pichonelli
Colaboração para Tilt
23/09/2020 04h00

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