(Foto: Acervo pessoal Pedro Henrique Alvarenga)

Fisioterapeuta da seleção masculina de vôlei sentado fala sobre suas experiências com o esporte para pessoas com deficiência e as expectativas para os Jogos Paralímpicos de Tóquio

O paradesporto é uma descoberta. A receita é simples, mas efetiva: conhecer, se envolver e se apaixonar por tudo o que o paradesporto e o esporte paralímpico representam.

Para o fisioterapeuta Pedro Henrique de Almeida Alvarenga, de 38 anos, isso não foi diferente. Hoje totalmente envolto pelo movimento paralímpico, o primeiro contato com o esporte para pessoas com deficiência aconteceu por acaso.

(Foto: Acervo pessoal Pedro Henrique Alvarenga)

Em 2003, quando ainda cursava Educação Física, ele precisava de horas complementares para o currículo da faculdade. No mural da universidade, viu o recado de um clube que precisava de estagiários para a natação. Era a oportunidade perfeita para finalizar as atividades como acadêmico e encaminhar a formatura.

“No mural não falava nada de paradesporto, mas dizia que era natação com crianças. Então eu fui e, para minha surpresa, quando entrei na academia vi um monte de crianças com próteses e cadeira de rodas. Na hora, fiquei assustado porque não era uma vivência corriqueira no meu mundo, até então”.

A iniciativa era do Clube Paradesportivo Superação, de São Paulo, que trabalha somente com a iniciação paradesportiva na água para crianças com deficiência. Alvarenga conversou com os professores do projeto e resolveu ficar – e, se me permitem dizer, para a sorte dele e de tantos outros.

“Comecei a descobrir esse mundo, estudar, pesquisar e, a partir dali, eu me apaixonei. Eu entrava na água para ensinar as crianças a se adaptarem ao meio líquido, não era nada de reabilitação ainda, mas já era incrível”.

Com pouco tempo de trabalho, foi promovido a técnico do time profissional do clube, quando ainda era estagiário. Com 20 anos de idade, não só fez sua primeira viagem no mundo esportivo, como participou do Campeonato Brasileiro de Natação Paralímpica, no Rio de Janeiro, e foi o técnico campeão na categoria S5.

Ao todo, foram sete anos junto ao clube que o lançou ao paradesporto. De lá para cá, o Clube Paradesportivo Superação lançou o projeto Nova Geração e atualmente, além da natação adaptada para crianças e adolescentes com deficiências físicas, também desenvolve a modalidade da vela adaptada, para a formação de novos atletas e, principalmente, sociabilização dos participantes.

Vôlei sentado: A descoberta de uma nova realidade 

Já formado em Educação Física e cursando o último semestre de Fisioterapia, Alvarenga conheceu o vôlei sentado. Foi a partir de um convite de um amigo, em 2010, que ele começou a trabalhar diretamente com a modalidade e se tornou fisioterapeuta no Clube dos Paraplégicos de São Paulo (CPSP).

Das piscinas às quadras, ele nunca esqueceu seu principal objetivo: integrar e proporcionar novas oportunidades ao público PcD.

“São esportes totalmente diferentes, mas com a mesma magia. Eu sempre vi no paradesporto uma possibilidade de agregar à vida social das pessoas com deficiência e nunca pensei que o esporte paralímpico fosse apenas pro alto rendimento. Trazíamos as crianças e todas as pessoas que sofreram algum tipo de acidente para dentro dos projetos como uma forma de socialização, para eles conhecerem outros atletas, outras pessoas com deficiência. A gente tira alguns estigmas da família e também do próprio atleta”.

A partir dos trabalhos no vôlei sentado, o caminho dentro do paradesporto foi se abrindo, levando a novas experiências e desafios. Mesmo assim, o fisioterapeuta não esquece do início e das primeiras atividades dentro da água.

“Eu tenho um coração muito grande pelo voleibol porque quando eu era adolescente eu jogava, então acabou casando uma paixão com o trabalho. Mas a natação continua sendo a minha “menina dos olhos de ouro”, modalidade que me projetou nesse mundo do paradesporto”. 

Seleção Brasileira de vôlei sentado: Sonho que se tornou realidade 

A chegada de Alvarenga à seleção masculina se deu por meio do CPSP, em 2010. “Coincidentemente, o técnico do clube recebeu o convite para assumir a seleção brasileira, a partir daí ele chamou outras pessoas para integrar a comissão”.

O fisioterapeuta estava nesse grupo e já trabalha há 11 anos na seleção de vôlei sentado. Entre um jogo e outro, ele se orgulha de estar acompanhando de perto o desenvolvimento do paradesporto no país, principalmente quando o assunto é a profissionalização dos atletas.

“Vimos muita gente saindo do esporte amador para o profissional. É uma transição que ainda precisa melhorar, mas já se percebe a evolução. O atletismo, a natação, a bocha paralímpica trouxeram um nível de profissionalismo muito alto pro nosso país”.

 As medalhas com o voleibol sentado

Nesse processo, foram muitas competições, oportunidades também junto à seleção feminina e um currículo recheado de medalhas. O fisioterapeuta da seleção brasileira de voleibol paralímpico traz na bagagem mais de dez medalhas conquistadas mundialmente.

  • Prata no Mundial de Vôlei sentado de 2014, na Polônia;
  • Bronze no Mundial de Vôlei sentado de 2016, na Holanda;
  • Três medalhas de ouro em Jogos Parapanamericanos com a seleção masculina, em Guadalajara 2011, Toronto 2015 e Lima 2019;
  • Duas medalhas de prata em Jogos Parapanamericanos com a seleção feminina, em Toronto 2015 e Lima 2019;
  • Bronze em Jogos Paralímpicos com a seleção feminina, na Rio 2016;
  • Prata e bronze no Torneio Internacional de Vôlei sentado, com as seleções masculina e feminina, respectivamente. A competição foi realizada em 2016, na China.

Da primeira medalha de ouro nos Jogos Parapanamericanos de Guadalajara, em 2011, até a última conquistada até aqui, o bronze na Rio 2016 com a equipe feminina, ele recorda carinhosamente de cada uma.

“Todas as medalhas são importantes e emocionantes. Cada uma tem uma história de superação, de resiliência e de força. No voleibol, por exemplo, a maioria dos atletas não vive apenas do esporte, eles têm empregos e precisam treinar após o trabalho. É essa luta dos atletas e o foco que eles têm que tornam todas as conquistas marcantes”.

O vôlei sentado do Brasil se tornou uma potência paralímpica e hoje figura entre as principais seleções do mundo. Na Rio 2016, jogando em casa, Alvarenga esteve presente em mais um marco histórico: a primeira medalha da modalidade em Jogos Paralímpicos. “Ter uma medalha no nosso país é algo extraordinário. A energia da torcida foi maravilhosa, a garra, o foco, a luta das meninas, todos abdicaram de algo pra conseguir essa medalha”.

A fisioterapia paradesportiva

A fisioterapia faz parte da rotina de todo e qualquer atleta. No esporte paralímpico, ter o acompanhamento de um profissional da área é ainda mais essencial

“Trabalhar a fisioterapia no paradesporto é muito agregador porque atuamos diretamente com quem necessita, com pessoas que têm alguma necessidade neurológica, intelectual ou física. É aí que você coloca em vigor tudo o que aprendeu”, conta Alvarenga.

Ele explica que o trabalho fisioterapêutico se divide em duas principais áreas: alto rendimento e ludicidade.

No alto rendimento estão inclusas as ações de prevenção de lesão e reabilitação. “No início, tentamos evitar que o atleta se lesione. Caso ocorra alguma lesão, dentro ou fora de quadra, precisamos trabalhar a reabilitação e devolver o atleta à alta performance, em menos tempo possível, mas de forma muito segura”.

Já o meio lúdico promove a introdução da pessoa com deficiência ao esporte e a adaptação com próteses, por exemplo, além da socialização. É aí que entra uma das principais vitórias da fisioterapia paralímpica, de relevância profissional e, principalmente, social. “Ver crianças que começaram com a gente e hoje estão com medalha no peito, participando de Jogos Parapanamericanos, Jogos Paralímpicos. A gente sente que teve um “dedinho” nesse processo e isso é muito satisfatório”.

As expectativas para os Jogos Paralímpicos de Tóquio

Como era de se esperar, a pandemia trouxe desafios para todos os atletas e equipes mundiais. Apesar de todas as restrições nos treinamentos, o Brasil vai atrás do ouro inédito no Japão. “Tanto os meninos, quanto as meninas treinaram forte, estão focados e, com certeza, esse obstáculo vai ser um combustível a mais para gente buscar essa medalha”.

Nas últimas semanas no Brasil antes da competição, ambas as seleções tiveram a possibilidade de treinar presencialmente no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo. Foram períodos de treinos intensivos, com academia, reabilitação, análises técnicas, até o dia do embarque para as terras japonesas. Por lá, a delegação brasileira passou pelo período de aclimatação, na cidade de Hamamatsu, antes de partir para Tóquio.

Por aqui, vamos torcer muito pelo Pedro, pelo vôlei sentado do Brasil e por todos os atletas brasileiros!

Duas perguntas rápidas para o entrevistado

1. Uma modalidade paralímpica em que ainda deseja trabalhar?

“Todas as modalidades paralímpicas são maravilhosas, com suas especificidades e jeitos de levar emoção ao público e aos atletas. A bocha paralímpica é um esporte muito inclusivo, com graus de deficiência muito altos e, mesmo assim, consegue levar atletas ao alto rendimento. Também gostaria muito de vivenciar as modalidades com os deficientes visuais, principalmente o goalball, específica do mundo do paradesporto.

2. Se o Pedro de agora pudesse dizer algo para o Pedro de 2003, aquele que chegou no ginásio e ficou espantado, o que diria?

“Algo bem simples: não desista. Confesso que quando vi aquele monte de criança, eu não sabia o que fazer. Eu não sabia o que falar, se eu podia cumprimentar, se a pessoa ia gostar, fiquei muito acuado. Quando não temos a vivência, a gente não sabe como se portar, acha que qualquer coisa pode magoar a criança ou os pais e, mesmo que não saibamos, isso é uma forma de preconceito. Então eu falaria pra mim mesmo: não desista de ninguém, não importa o comprometimento motor ou intelectual, a raça, o credo, a etnia. Toda pessoa merece respeito e merece uma chance de recomeçar. Graças a Deus, eu não desisti e, felizmente, lapidamos muitas pessoas, tanto pro esporte, quanto pra vida. A gente resgata a alegria, a sociabilização, o amor próprio, o orgulho na família. Isso é inenarrável e sempre que lembro de alguma situação, me arrepio. São muitas histórias e que bom poder participar de tantas delas.”

Vôlei sentado no mundo: curiosidade dos atletas paralímpicos

No final da entrevista, o fisioterapeuta ainda falou sobre algumas especificidades da modalidade paralímpica em que atua. No voleibol sentado de alto rendimento é comum vermos atletas amputados de membros inferiores, mas você sabe o motivo disso?

Cada país tem um tipo de causa principal que leva à deficiência dos atletas. São peculiaridades que interferem na tática de jogo e na análise de cada adversário . Confere só:

  • Brasil: cerca de 90% dos atletas brasileiros do voleibol sentado sofreram acidentes de trânsito, envolvendo principalmente motocicletas.
  • Irã: a maior causa da deficiência dos atletas iranianos é a poliomielite. Na religião muçulmana, por muitos anos se rejeitou a aplicação de injeções e vacinas extracorpóreas. Assim, a maioria dos atletas nasceu com paralisia cerebral, visto que a única forma de prevenção é a vacinação.
  • Bósnia: grande parte dos atletas do vôlei sentado é amputada do pé. Nos anos 90, muitos conflitos armados levaram a mortes e, até hoje, existem minas terrestres no país, que levam a esse tipo de lesão.
  • Estados Unidos: a má alimentação leva muitos norte-americanos a nascerem com problemas de saúde, congênitos ou osteossarcoma (câncer que se desenvolve nos ossos) que levam à amputação dos membros do corpo. Além disso, há atletas que tiveram sequelas causadas pelas guerras.

 

Fonte: Blog Ação Paratleta

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